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Trinta por uma linha

Coisas da vida

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Há, na nossa vida, muitas coisas que não gostamos, o ter de levantar cedo para ir trabalhar, o próprio facto de ter de trabalhar, a insolência de alguns alunos, a impaciência da nossa esposa quando não arrumamos a loiça ou deixamos a cama por fazer... Noutra dimensão, não gostamos quando nos tratam injustamente, ou quando interpretam mal as nossas boas intenções, quando não se apercebem do nosso valor ou quando todos os nossos esforços foram em vão. Por outro lado, por vezes sofremos para lá do suportável quando perdemos alguém querido ou quando um amigo ou familiar padece de uma qualquer doença grave. De uma forma muito resumida, detestamos quando as coisas não correm como queremos. Ainda assim, por mais que nos esforcemos, por mais que queiramos e por mais que desejemos, sempre vão acontecer coisas menos boas na nossa vida. Eu, por exemplo, adorava que a minha escrita não fosse tão perifrástica, mas não há nada a fazer, é mais forte que eu. Uma batalha perdida. 

É mesmo disso que hoje estou a falar, de batalhas perdidas. Todos já as tivemos, todos ainda as teremos. E não há como evitar. 

Ora esse é mesmo o primeiro passo a dar. Reconhecermos essa nossa fraqueza, a de ser impossível ganhar todas as batalhas, sabermos que a perfeição será sempre inatingível e de que o sofrimento, de uma forma ou de outra, com mais ou menos intensidade, fará parte de nossa vida. Aceitando esse facto como incontornável, o passo seguinte passará pela forma como optámos por lidar com esse assunto. Podemos, por um lado, perpetuar o sofrimento tentando lutar contra ele, não o aceitando, ou podemos escolher por escrever perpetuamente no muro das lamentações o quanto somos miseráveis. Podemos, por outro lado, escolher o caminho oposto, o de abraçar o sofrimento e, sabendo que faz parte, olhar em frente e darmos o nosso melhor nas nossas vidas, mesmo com essas inoportunas limitações que esse sofrimento nos traz. Se não há nada que possamos fazer para o evitar, só nos resta aceitar quando este chegar e, de seguida, dar o melhor de nós para que a vida continue a acontecer. É difícil? É. Custa sofrer? Custa. Mas, se aceitarmos que esses momentos menos bons fazem parte da vida, é meio caminho andado para que eles nos fortaleçam em vez de nos enfraquecerem. 

Outra das coisas que teimamos em fazer, principalmente quando atravessamos uma dessas marés negras, é ignorar tudo o que de bom temos e nos rodeia. Teimamos em sobrevalorizar o que nos acontece de mau e esquecer as nossas riquezas. Se pararmos um pouco e pensarmos em tudo aquilo que temos na vida e que reconhecemos ser importantíssimo para nós, vamos chegar à conclusão que vale a pena aguentar um dia, um mês ou um ano menos bom para poder usufruir daquilo de que tanto gostamos e de todo o restante conjunto de coisas boas que a vida ainda tem para nos dar. 

Para vos dar o meu exemplo, sempre que tenho um dia em que, por qualquer motivo, acordo de mau humor, só me apetece mandar dar uma volta quem me aparece à frente e aparecer com testes surpresa aos meus alunos, paro, respiro fundo e lembro-me que, no fim desse dia, me vou deitar ao lado de quem amo, vou ter oportunidade de ouvir como foi o seu dia, de sentir as suas mãos geladas a tentarem aquecer-se na minha barriga e eu quase a entrar em estado de hipotremia, tudo se torna mais fácil de suportar e o dia volta a ficar iluminado. Nesses momentos, agradeço, apesar de tudo o que de menos bom há em mim, a felicidade de amar e ser amado, de ter um lar em que me sinto em casa, de ter uma família unida e que está sempre presente e de ter um novo dia à minha espera para que tudo possa começar de novo.

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