Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Trinta por uma linha

Arte? Mas que arte?

Life-imitates-are-far-more-than-art-imitates-life.

 

Sempre tive uma opinião muito bem definida no que à génese de qualquer obra de arte diz respeito. A literatura, que é de todas as artes aquela que mais me alicia, não foge à regra. A meu ver, mesmo aceitando que toda e qualquer criação do homem é, de facto, influenciada pela sua vida, pela sua capacidade para ler e desconstruir a realidade, é de todo desprovido dizer que a relação entre estas duas dimensões, a do sujeito que vive e a do sujeito que cria, assume uma disposição de causa-efeito. Não há nada mais injusto e injurioso para o mundo das artes. A Arte tem vida própria. Só pode ser vista como algo que nos ultrapassa. Não é instrumento de nada nem de ninguém. Nunca a Arte pode servir como meio para algo, não tem meio nem fim, é um prefácio que serve unicamente a Beleza, sendo aí que encontra o seu prólogo e o seu epílogo. Assim, não somos nós que criamos a Arte, é ela que nos cria, que nos escolhe e deixa que a possamos contemplar, de forma a que não nos seja tão difícil viver. Desta forma, na literatura ou em qualquer outra arte, não pode haver deveres ou coacções, tudo aparece quando tiver de aparecer, sem marcações ou datas de entrega. As nossas produções precisam de ser livres e libertinárias, pois só assim serão elas próprias. Obviamente que haverá quem não concorde comigo, e ainda bem que assim é. Porque cada um vive de acordo com a sua própria crença (entenda-se aqui crença como um conjunto de sentimentos que, pela sua força, se tornam as convicções que acabam por definir a nossa forma de viver) e esta é a minha. Desta forma, escrevo quando acordo bem disposto, só leio quando o tempo metereológico me diz que devo ler e só quero ouvir música quando as Três Marias estão alinhadas.
Acredito em Musas, intentos, vontades e alentos, porque de cada vez que me sento para escrever algo, é porque me sinto predisposto para o fazer, sinto um querer determinado a sair e a respirar com mais espaço. A Inspiração é para mim um axioma, assim como um verdadeiro dogma que me mantém refém durante a maior parte do tempo e que, de quando em vez, me deixa ver, ainda que de muito longe, a luz que me vai permitindo contemplar a tal Beleza.

Da arte e outros prazeres

vangogh16ok_1164730_292213.jpg
 
Há algum tempo atrás, ao visitar uma exposição de quadros, vi-me envolvido por um rodopio de sensações que só a arte, e um conjunto restrito de outras coisas, consegue transmitir. Não resisti, e deixei uma pequena nota ao autor dos referidos quadros. Transcrevo aqui essa nota, porque traduz ,de certa forma, a minha maneira de ver e estar na arte:


"A pintura é uma poesia que se vê e não se sente e a poesia é uma pintura que se sente e não se vê."

Com este meu gosto pelas letras que tudo contam e nada dizem, não resisti a este ilustre dito vindo do mestre que foi e ainda é, Da Vinci. Na verdade, não há muito para dizer. Há, isso sim, muito para sentir; os olhos, mal educados, nunca foram bons a falar. De peito feito e coração bem aberto, todas as cores terão um significado, todos os traços serão inconstantemente lineares, todos os tons falarão por si. Daí eu me ter sentido obrigado a referir a poesia, essa irmã gémea da pintura. Ambas, de mão dada, caminham em direcção ao infinito, guiadas pela musicalidade, em busca da perfeição. E é isto que deve guiar a nossa vida, a perfeição, a música, os devaneios do infinito. Só assim somos verdadeiros seres humanos.
O ideal espera por nós, temos que iniciar a procura. Pela sonoridade, pela tonalidade, pelo sabor, um dia lá chegaremos. E nunca, como Ícaro, cairemos. As nossas asas não são feitas de cera.
 
 
Este texto foi escrito por mim há cerca de dez anos, um período em que estava sob forte influência do Romantismo. Muito mudou, já não acredito em ideiais e perfeições, mas continuo a afirmar que não podemos deixar de os procurar, pois é isso que dá sabor (e muitas vezes insatisfação) aos nossos dias! Só assim não estagnaremos e evoluiremos para seres não perfeitos, mas consistentemente melhores.

Mais sobre mim

foto do autor

Categorias

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D