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Trinta por uma linha

Somos um vaso de barro, com um tesouro escondido

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Em conversa com um companheiro cuja sabedoria e experiência ultrapassam em muito os meus humildes conhecimentos sobre a vida, veio a lume uma metáfora trazida por S. Paulo sobre a existência humana que me deixou surpreendido pela sua simplicidade, clareza, mas também pela verdade e ensinamento que encerra. 

Diariamente somos relembrados das nossas fragilidades e limitações, a cada passo encontramo-nos a tentar algo que nos ultrapassa, a fugir a sofrimentos que nos perseguem, a travar batalhas que, por mais que tentemos, não conseguimos ganhar. Temos a consciência que somos seres finitos, que somos fracos e limitados, pejados de defeitos que não conseguimos ultrapassar. Ainda assim, dir-me-ão vocês, caros leitores, e com toda a razão, somos capazes da maior das maravilhas, da mais inesperada das vitórias, quando já ninguém acredita em nós. Somos, portanto, um pedaço de nada que sem quê, nem porquê, achamos nós, consegue produzir algo que, por vezes, é venerado durante centenas de anos. 

É um raciocínio difícil de perceber, um paradoxo talvez, e para muitos nunca deixará de o ser. 

Para mim, que acredito que somos mais do que aquilo que mostramos, muito mais do que aquilo que deixamos transparecer, não é difícil perceber. Aliás, considero que nem se trata sequer de um raciocínio ou de algo meramente lógico. Trata-se única e simplesmente de acreditar. Crer que encerramos em nós algo muito maior do que tudo o que nos rodeia e muito mais poderoso que todas as nossas fragilidades. Quando acreditamos nesse valor, no momento em que não resta qualquer dúvida sobre o que realmente valemos, é aí que chegamos ao impensável, àquilo em que ninguém acreditava ser possível atingir. 

Podereis pensar, e tendes toda a liberdade para isso, que estou a debitar doutrina decorada, mas quem me vem acompanhando, quem me conhece sabe que não se trata disso. E poderia estar aqui um dia inteiro a dar-vos motivos, provas e razões para fundamentar o que estou a dizer. Todavia, não é esse o meu propósito. 

O meu objetivo é fazer-vos acreditar que é um facto, como São Paulo refere, que não passamos de um vaso de barro, de um barro cada vez mais frágil e seco, que se parte ao mais leve toque, mas por outro lado, possuímos, dentro de nós, um tesouro inestimável, uma força que nos transcende e que nos faz ir além, que nos ajuda a ultrapassar todos os obstáculos que vão surgindo no nosso caminho. A nossa única função é acreditar nesse tesouro, acreditar nele com todas as nossas forças e, quando isso acontecer, tudo ganhará uma nova perspetiva e o impensável acontecerá uma vez mais. 

Deixo-vos com as palavras do próprio São Paulo:

Temos, porém, esse tesouro em vasos de barro, para demonstrar que este poder que a tudo excede provém de Deus e não de nós mesmos. Sofremos pressões de todos os lados, contudo, não estamos arrasados; ficamos perplexos com os acontecimentos, mas não perdemos a esperança; somos perseguidos, mas jamais desamparados; abatidos, mas não destruídos; trazendo sempre no corpo o morrer de Jesus, para que a vida de Jesus, da mesma forma, seja revelada em nosso corpo. (...) Portanto, não desanimamos! Ainda que o nosso exterior se esteja a desgastar, o nosso interior está em plena renovação dia após dia. Pois as nossas aflições leves e passageiras estão a produzir para nós uma glória incomparável, de valor eterno. Sendo assim, fixamos os nossos olhos, não naquilo que se pode ver, mas nos elementos que não são vistos; pois os visíveis são temporais, ao passo que os que não se vêem são eternos. A morada eterna do cristão.

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