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Trinta por uma linha

A geração dos Sem Tempo, ou a fábula do carro que anda sem combustível

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Por obra de diversos fatores, como, por exemplo, a crise económica, a obrigatoriedade de acumularmos trabalhos, a sede de dinheiro ou a ambição materialista, podemos dizer que hoje vivemos uma vida sem tempo para nada. Frequentemente ouvimos as pessoas a dizer que não têm tempo para os seus filhos, nem sequer para si. Vivem entaladas numa vida, que se passa sem darem conta, entre afazeres sociais e profissionais. Dizem que é a sua vida, mas não é. É a vida de alguém ou de algo, mas não a deles.

Desde que me conheço, sempre tive dificuldade de perceber esta filosofia de existência. Entendo que temos de merecer o nosso pão, aceito que temos um papel na sociedade. O que não posso aceitar é que essa parte se transforme no todo. É impensável que o que nasceu para ser um meio, se transforme, ele próprio, no seu fim. Alguém dizia que o trabalho ou até o próprio dinheiro são bons servos, mas são péssimos mestres e eu não poderia estar mais de acordo. 

O que defendo, então, é uma vida equilibrada, em que não deixem de existir momentos para estarmos com nós mesmos, em que paremos para pensar como foi o nosso dia, como vai a nossa vida, o quão felizes nos estamos a sentir. É fundamental, para a nossa integridade, que encontremos um momento em todos os nossos dias, para fazermos algo que gostamos de fazer, que nos realiza, que nos preenche, pois são essas pequenas ações, a que chamamos injustamente e de forma pejorativa passatempos, que nos vão dar alento e força para continuarmos a por o melhor de nós em tudo o que fazemos. Assim, na minha opinião, estas duas vertentes são fundamentais para ter uma vida saudável e sustentável, termos diariamente tempo para nós, para pararmos um pouco e refletirmos e para fazermos algo de que realmente gostamos. 

Para os que se vão, eventualmente, defender, argumentando que não têm tempo, não porque não querem, mas porque não podem, porque os seus deveres não o permitem, eu respondo com uma metáfora que encontrei num livro que ando a ler. Podemos comparar uma pessoa que não tem tempo para si, para recarregar as suas energias, parando um pouco e fazendo algo que gosta a um potente carro. Este tem tudo o que é preciso para ter sucesso nas suas funções, um bom motor, cavalagem suficiente, uma suspensão segura. No entanto, se quem o conduz não parar, de vez em quando para lhe meter combustível, todas essas caraterísticas de excelência não adiantarão de nada, uma vez que sem combustível, ele vai deixar de funcionar. 

 

Boa semana!

Como definir prioridades, em pleno século XXI

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Vivemos numa sociedade que consome avidamente os nossos dias, sem que nós tenhamos consciência disso. Recebemos solicitações de todos os lados e de várias dimensões. O telemóvel não para de tocar com notificações relacionadas com a vida de todos os que nos rodeiam, a televisão tenta incessantemente apoderar-se da nossa atenção para mais um noticiário dramático e a internet chama por nós, com os sites e blogs a precisarem que os olhemos e partilhemos para que possam sobreviver. No topo disto tudo, temos a nossa vida: família e, claro está, trabalho. Ora, é por de mais sabido que, a este respeito, vivemos numa verdadeira sociedade meritocrata e adepta da excelência. De acordo com os discursos motivadores e pseudo-inspiradores dos nossos patrões, líderes ou governantes, a cada dia temos de nos conseguir exceder. Há que produzir mais e melhor, temos de provar quotidianamente que conseguimos ultrapassar o nosso colega do lado, pois só assim seremos reconhecidos, só desta forma subiremos na vida e melhoraremos as nossas condições. Pois bem, eu, com a minha costela diletante de um verdadeiro Carlos da Maia acabadinho de sair da obra mor de Eça, acho tudo isto um grandessíssimo saco cheio de nada, aquele tipo de palavreado que não encontra simpatia em mim. 

Desde novo que considero possuir algumas boas virtudes e alguns bons defeitos (sim, os defeitos também servem para alguma coisa boa). Nem mais, nem menos que as outras pessoas, apenas aqueles que definem a minha personalidade e que, no seu conjunto, me fazem ser quem eu sou. Também desde muito cedo percebi que, como toda e qualquer outra criatura, sou limitado e as minhas capacidades são finitas. Assim, ainda durante a minha juventude concluí que tinha de tomar uma decisão, sabendo que essa decisão definiria, de certa forma, a minha vida futura. Como não me considerava um génio ou um predestinado, sabia que para ser excelente em algum domínio da minha vida, teria de quase abdicar dos outros. Por outras palavras, para ser o melhor profissional, teria de me contentar em ser um amigo de ocasião, um filho desinteressado e um marido e pai ausente, além de que me sentiria, enquanto ser humano, incompleto. A excelência tinha um preço e eu não estava disposto a ficar à espera de um desconto. Então, no pleno da maturidade dos meus 16 anos, decidi que, se eu possuísse cinco candeeiros para acender e uma quantidade limitada de energia, eu não iria utilizá-la num só candeeiro que ofuscasse todos os outros, mas sim, reparti-la-ia pelos cinco, ainda que, desse modo, a luz não brilhasse de maneira tão intensa. 

Quinze anos depois, sou um profissional razoável com consciência de que poderia ser melhor, um amigo que está presente na vida dos meus amigos e um marido que, apesar de ainda estar a aprender o que isso é, tenta fazer a sua esposa feliz. Além disso, o meu sofá nunca se queixará de solidão, pois não há um dia que não lhe faça companhia durante um bom período.

Sei que o poeta diz "Para seres grande, sê inteiro", no entanto, nesta sociedade que pede tanto de nós afirmo que temos de sabiamente escolher as nossas prioridades e escolher quais as aplicações da minha vida devo desinstalar ou, pelo menos, pôr em stand-by. Por isso, digo abertamente que não há excelência na minha vida, não há perfeição em nenhuma das suas dimensões, tento, sim, que haja equilíbrio, realização pessoal e felicidade. Para mim e para os que me rodeiam.  

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