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Trinta por uma linha

O leão e o caçador ou uma das razões de eu não ver o noticiário

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Tinha um professor que me dizia que se quisesse estar informado para não ver as notícias. Na altura, não percebia muito bem o que ele queria dizer com aquilo, mas, com o passar do tempo, com alguns estudos que fui fazendo, principalmente a nível do doutoramento, fui, aos poucos descobrindo que havia muita verdade no que meu professor de História dizia.

Há uns anos atrás, dei de caras com um ditado africano que diz que "até que o leão aprenda a contar o seu lado da história, o conto da caça vai sempre glorificar o caçador". Ora e foi aqui que fiquei a perceber totalmente o que se passava, sendo que este é um dos principais motivos de eu não ver noticiários nem ler jornais. Só um, porque há vários.

Sem querer cair em teorias da conspiração, não tenho dúvidas absolutamente nenhumas que as notícias que nos são apresentadas, são selecionadas, trabalhadas, no fundo, filtradas, antes de nos surgirem à frente. Porque é sempre o caçador que tem o poder de contar a história. É ele que escolhe os detalhes que devem ser realçados, os que devem ser omitidos e aqueles que devem ser alterados. A forma como a história é contada, depende apenas e somente do caçador, pois é este que tem os meios para fazer as modificações que desejar. 

Por outro lado, se isso acontece, também não nos podemos esquecer, que isto só acontece, porque o leão, não sabe, tem meios, não possui capacidade para contar ele próprio a sua versão dos factos. Se isso acontecesse, tudo seria diferente. Haveria duas versões para analisar e comparar. Por isso digo que, talvez esteja na hora de o leão se munir dessas capacidades, talvez seja a altura de nos preocuparmos em educar o leão, ensiná-lo a expressar-se de maneira a que possa ser compreendido pelos demais.

 

Quando se conseguir saber o outro lado da história, quando o leão contar a sua verdade dos factos, quando reunir as capacidades para tal, aí sim, a ditadura do caçador acabará e eu talvez volte a ver noticiários. 

O Vendedor de Passados

Hoje, decido-me a partilhar convosco a história de um livro cuja mensagem me cativou pela sua originalidade e pela forma que, quase a brincar, aborda assuntos tão sérios e merecedores de reflexão.

 

Em O Vendedor de Passados, o narrador Eulálio, uma osga, conta-nos a história de Félix Ventura, um albino, filho adoptivo de um alfarrabista. Influenciado pela profissão do seu pai, Félix tornou-se um ávido leitor e, posteriormente, um vendedor de livros em segunda mão. No entanto, a sua ocupação principal passa a ser traficar ficções, ou melhor, passados, pois passa a ganhar a vida a vender genealogias às pessoas, inventando histórias para elas. Se alguém sente que precisasse de um passado que lhe facilitasse o presente, Félix Ventura era a pessoa a procurar. “Os empresários, os ministros gostariam de ter como tias aquelas senhoras, prosseguiu, apontando os retratos nas paredes – velhas donas de panos, legítimas bessanganas -, gostariam de ter um avô com o porte ilustre de um Machado de Assis, de um Cruz e Sousa e ele vende-lhes esse sonho singelo.” (Agualusa, 2005). A sua vida muda de rumo, no entanto, quando ele, ironicamente, é procurado por um estrangeiro que quer comprar uma identidade angolana. Não um angolano que procura um passado que o ligue a um país estrangeiro, mas exactamente o oposto. Este estrangeiro torna-se José Buchmann, nascido na Chibia, uma área no sul de Angola que tinha sido ocupada por europeus, com descendência madeirense. Mais tarde, fica-se a saber que o seu nome verdadeiro era Pedro Gouveia, um português que viveu desde muito novo em Angola, mas que tinha saído do país, rumo a Portugal, por motivos algo obscuros. Pedro Gouveia, mais tarde José Buchmann, regressa mais tarde a Angola com o objectivo de vingar a morte da sua amada e a tortura da sua filha, com quem se reúne durante o decorrer da história. A parte mais interessante, significativa e simbólica do livro chega mais tarde, quando esta personagem começa a apropriar-se do passado que Félix lhe vende. A tal ponto que começa a tentar confirmar esse passado inventado com factos reais. Por outras palavras, ele corrobora a ficção, chegando, inclusivamente, a construir e a fotografar o túmulo do seu avô na Chibia e chega a viajar até Nova Iorque com o objectivo de encontrar algo que provasse a existência da sua mãe ficcionada. De certa forma, pode-se afirmar que ele foi inventado, numa primeira fase, mas, mais tarde, começou a inventar-se, começou a vestir a ficção com roupas de verdade. Esta metamorfose de Gouveia que se torna Buchman completa-se no final da história, quando este se muda definitivamente para a Chibia.

Quando li esta obra, conclui que não era propriamente a atividade de Félix que me perturbava, não eram as mentiras que ele conscientemente vendia. O que mais me interessou era a possibilidade, como no caso de Buchmann, de as mentiras se transformarem em verdades. No fundo, a personagem que o autor estava a construir, ganhou liberdade e começou a construir-se a ela própria, como que se tivesse ganho vida. O que, por si só, nos traz a ideia da indefinição existente entre as fronteiras da realidade e da ficção, do autor e da personagem, do criador e do criado. Na verdade, se transpusermos a história de José Buchmann para um sentido mais lato, facilmente entendemos que as memórias que se conjugam na construção de uma História (aquela que nos ensinam na escola e em que nós acreditamos tão inocentemente sem a questionar), muitas vezes, não são mais que muitas estórias acrescentadas, fruto da nossa memória subjectiva das experiências vividas. Facilmente se percebe, então, que Agualusa, com esta obra, tenta trazer esta perspectiva para o domínio da identidade angolana, tentando-a desconstruir. Na sua opinião, a própria história do seu país é construída à base de muitas estórias. A melhor forma que Agualusa encontra para abordar essa questão é, ele próprio, problematizar o conceito de passado, remexer com as nossas memórias, questionar as próprias fronteiras de realidade e fantasia, história e ficção.

 

Recomendo.

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