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Trinta por uma linha

A nossa sociedade vista através das filas de espera

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Sempre que estou numa fila de espera, dou comigo a pensar várias vezes que esta poderia ser uma metáfora perfeita do que se passa na nossa sociedade, tal é o desfile de personagens que estamos habituados a ver no nosso dia-a-dia. São tantos e surgem de forma tão repetida que não consigo evitar partilhar esta minha maluqueira convosco. Ora vejamos, temos o bom samaritano, aquele que deixa a velhinha que está atrás de si passar-lhe à frente, ficando de sorriso estampado nos lábios, todo orgulhoso da sua atitude; temos os oportunistas que mal veem que alguém que está na fila à sua frente e vai desistir, se apressam a pedir seu ticket para avançarem uns lugares, deixando aqueles que são ultrapassados sem reação; temos o cidadão exemplar, aquele tipo de pessoa que até parece que gosta de filas, só para mostrar que é civilizado e que sabe esperar pela sua vez, sem levantar qualquer onda, mostrando aos impacientes que o rodeiam que se acha superior a eles, apenas porque é mais paciente; temos os golpistas, aqueles que, como quem não quer a coisa, passam à frente de toda a gente, fingindo que conhecem o senhor ou a senhora que está a fazer o atendimento e afirmando que só querem fazer uma perguntinha. E, por fim, temos os rabugentos, que nunca estão bem com nada, ou é porque quem atende é incompetente, ou é porque há pouca gente a atender, ou até porque as pessoas se lembraram de virem todas à mesma hora. Tem sempre algo para reclamar. 

E depois há aqueles, como eu, que, enquanto espero, não consigo ter tento no pensamento e me ponho a inventar estas teorias. 

 

 

O Elogio da Loucura

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"A chicken is just the egg's way of making another egg."

Por vezes, olho para a nossa sociedade como uma massa disforme com vida própria que anda e consome, que anda e nos consome. Podem acusar-me de ser pessimista, de não ser moralmente emendado. Talvez tenham razão, mas não consigo sorrir quando não me sinto alegre, não consigo ficar quedo e calmo quando vejo que as pessoas se comprazem nesta pocilga de pseudo-valores e ideais em que se tornou a nossa sociedade. Vivem a mentira da sua alegria, vivem a verdade do seu sofrimento. De olhos vendados pelas suas próprias mãos, vivem enganados pela sociedade do mérito e da excelência que alguém instituiu mas que nunca seguiu.
 

Talvez não seja correcto defender estas posições de descrédito, mas há dias em que não consigo perceber como se é tão levianamente enganado, como se consegue viver na ilusão de que se deve ser bom profissional , excelente naquilo que se faz porque é bom para si próprio, ou para o seu ego, seja lá o que isso for. Eu, que dispenso a maioria das opiniões alheias, pois sei que não são dignas de serem ouvidas, eu que detesto tudo o que estiver relacionado com juízos unanimemente aceites, eu que faço questão de vincar a minha diferença, pois só assim me atingirei e serei atingido, limito-me a fazer este elogio da humildade, da simplicidade, enfim, este elogio da sensatez, que aos olhos dos outros não passa de um elogio da loucura.
 
 
Não há necessidade de vivermos a nossa vida por algo que não vale a pena. Temos que nos colocar em primeiro lugar e valorizar apenas o que tem valor para ser valorizado. Um passeio com o silêncio das nossas vozes, uma música que nos fala e nos quer, um poema que nos percebe, uma solidão que nos seduz pela sua companhia. Estas devem ser as nossas prioridades, os nossos intentos. Teremos que ter uma profissão e um papel a desempenhar na sociedade, não nego isso. Apenas afirmo que este deve ser apenas um dos nossos viveres e não o único, total e absoluto.Com isto, não seremos self-made men nem meritocratas, seremos somente nós. E que grande conquista seria, conserguirmos viver sendo unicamente nós.
 

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