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Trinta por uma linha

Reis nos tempos modernos ou o Elogio da mediania

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O que marca muitas vezes a aceitação de um autor e suas obras está para lá da mera qualidade do que ele é capaz de produzir. Ainda que possa ser esse o motivo principal para o seu sucesso, não raramente, o facto de seguirmos com interesse os escritos de alguém, ou até as suas biografias, não é o valor da obra em si, dos jogos conceptuais e das ideias inesperadas que nos surgem a meio da leitura. Qualquer criação artística que nos marque e cative a nossa atenção fá-lo pelo facto de possuir em si algo que nos atrai, algo com que nos identificamos ou com que identificamos parte da nossa vida, os nossos pensamentos ou opiniões. Por outras palavras, pode-se dizer que nos solidarizamos com o pensamento do autor da obra.

Comigo, isso acontece bastante com Ricardo Reis, um dos "outros eus" de Fernando Pessoa. Visto por muitos como um epicurista triste, este heterónimo procurava encontrar um equilíbrio e uma harmonia consistente no meio das nossas limitações. Por outras palavras, Ricardo Reis defendia que devíamos fugir aos prazeres violentos e buscar a serenidade e a calma no nosso dia-a-dia, procurando a felicidade nos pequenos mas importantes momentos do nosso quotidiano. Se preferirmos, podemos considerar que Pessoa, pela voz de Ricardo Reis, defendia um carpe diem harmonioso, consciente e racional, longe da interpretação que é dada a este conceito nos dias que correm. A esta visão epicurista da vida, o poeta juntava-lhe uma atitude estoica, defendendo que, da mesma forma que devemos procurar uma vida emocionalmente estável e harmoniosa, devemos igualmente aceitar aquilo que a vida nos dá, sem deixar que isso nos afete. Assim, no dizer de Ricardo Reis, devemos ser disciplinados ao ponto de não nos deslumbrarmos com algo incrivelmente bom, nem entrarmos em desespero com algo terrivelmente mau, não viver iludido com algo que estamos à espera que aconteça mas que pode não acontecer, mas não viver igualmente desiludido por ter acontecido algo que nos magoou. O ideal é não nos deixarmos envolver em demasia para evitar um sofrimento desmedido. 

Se evitarmos levar à letra esta doutrina e olharmos para ela de uma maneira mais fria, racional e pragmática, veremos que esta é muito atual e perfeitamente passível de ser adequada às nossas vidas. Se tentarmos viver afastado dos turbilhões de sentimentos, das relações conturbadas e procurarmos harmonia e serenidade com todas as nossas ações e se juntarmos a isso uma vontade de querer aceitar o que a vida nos dá, tentanto não querer mais nem menos que isso e estando gratos por tudo o que cada dia nos traz, será mais fácil vivermos em paz connosco e com os outros. 

Faço, assim, de maneira aberta e destemida, um elogio da mediania e, consciente das críticas que um tempo meritocrático pode trazer a tal visão, assumo-o como algo que procuro e tento trazer para a minha vida. Não quero ser génio de nada, quero apenas ser bom em tudo!

 

Boa semana

 

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