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Trinta por uma linha

Memento mori

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Poucas expressões têm capacidade para ter tanto impacto nas nossas vidas. A consciência de que somos seres que, mais cedo ou mais tarde, vamos encarar o nosso fim, ao invés de nos deixar abatidos pela nossa vulnerabilidade e finitude, deve-nos libertar dos nossos medos e de tudo o resto que nos limita e nos impede de sermos quem realmente estamos destinados a ser, devido ao omnipresente receio de que isso nos leve a perder o pouco que temos.  

Steve Jobs, afamado cofundador da Apple, refere na sua biografia que foi quando lhe foi diagnosticado um cancro pancreático, ainda que num estado inicial, que se apercebeu do poder desta sentença ao nível da sua vida. O próprio refere que é quando nos apercebemos da brevidade da nossa existência que automaticamente nos comprometemos a não deixar que nada nos impeça de fazermos aquilo que o nosso coração nos diz que tem de ser feito. Por outras palavras, ao aperceber-se da fragilidade da sua vida, autoconsciencializa-se que aqueles limites que constantemente impomos a nós próprios, os receios de perdermos o que temos e que refreiam as nossas intenções mais verdadeiras, mas muitas vezes também, mais temerárias e arriscadas, não fazem sentido porque o que de mais garantido existe é que, mais tarde ou mais cedo, acabaremos por perder tudo. Assim, apercebemo-nos que a única atitude que faz sentido é ouvirmos o nosso coração e agirmos de acordo com o que eles nos diz. 

Marco Aurélio, imperador romano que, de cada vez que alcançava um triunfo e desfilava pelas ruas de roma com o povo a aclamar o seu líder, fazia questão de ter um escravo a seu lado suspirando ao seu ouvido "Memento mori - Lembra-te que és mortal", escreveu nas suas Meditações

Lembra-te sempre de todos os médicos, já mortos, que franziam as sobrancelhas perante os males dos seus doentes; de todos os astrólogos que tão solenemente prediziam o fim dos seus clientes; dos filósofos que discorriam incessantemente sobre a morte e a imortalidade; dos grandes chefes que chacinavam aos milhares; dos déspotas que brandiam poderes sobre a vida e a morte com uma terrível arrogância, como se eles próprios fossem deuses que nunca pudessem morrer; de cidades inteiras que morreram completamente, Hélice, Pompeia, Herculano e inúmeras outras. Depois, recorda um a um todos os teus conhecidos; como um enterrou o outro, para depois ser deposto e enterrado por um terceiro, e tudo num tão curto espaço de tempo. Repara, em resumo, como toda a vida mortal é transitória e trivial; ontem, uma gota de sémen, amanhã uma mão cheia de sal e cinzas. Passa, pois, estes momentos fugazes na terra como a Natureza te manda que passes e depois vai descansar de bom grado, como uma azeitona que cai na estação certa, com uma bênção para a terra que a criou e uma acção de graças para a árvore que lhe deu a vida.

Também nos devemos lembrar constantemente destas palavras. Talvez assim estejamos mais próximos de ter a vida a que realmente aspiramos.

Memento mori!

As três histórias da vida de Steve Jobs - Capítulo III

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A minha terceira história é sobre morte.

 

Quando eu tinha 17 anos, li uma citação que dizia algo como "se tu viveres cada dia como se fosse o último, um dia terás razão". Esta citação impressionou-me, e nos 33 anos seguintes, de manhã, vejo-me ao espelho e pergunto, se hoje fosse o último dia da minha vida, eu desejava estar a fazer o que faço? E se a resposta for "não" por muitos dias consecutivos, é porque preciso de mudar alguma coisa.

Lembrar-me que em breve estarei morto é a melhor ferramenta que encontrei para me ajudar a fazer as grandes escolhas da vida. Porque quase tudo - expectativas externas, orgulho, medo do fracasso - desaparece diante da morte, só fica aquilo que é importante. Lembrarmo-nos que cada um de nós vai morrer é a melhor maneira que conheço de evitar a armadilha de não arriscar por causa do que temos a perder. Não há motivo para não fazer o que o coração dita.

 

Há cerca de um ano atrás, fui fazer um exame e descobri que tinha cancro. Uma ressonância às 7h30 da manhã mostrou claramente um tumor no meu pâncreas - e eu nem sabia o que era um pâncreas. Os médicos disseram-me que era uma das piores formas de cancro, era praticamente certo que era incurável e que a minha expectativa de vida era de três a seis meses. O médico aconselhou-me a ir para casa e organizar os meus negócios, que foi o mesmo que dizer "prepare-se, você vai morrer". Isto significava que teria de dizer aos meus filhos em alguns meses tudo que eu imaginava que teria anos para lhes ensinar. Significava garantir que tudo estivesse organizado para que a minha família sofresse o mínimo possível. Significava despedir-me.

 

Eu passei o dia todo a pensar naquele diagnóstico. Na mesma noite, uma biópsia permitiu que se retirassem algumas células do tumor. Eu estava anestesiado, mas a minha mulher, que estava lá, contou que quando os médicos viram as células no microscópio começaram a chorar, porque se tratava de uma forma muito rara de cancro pancreático, tratável por cirurgia. Fiz a cirurgia, e agora estou bem.

 

Nunca tinha estado tão perto da morte, e espero que mais algumas décadas passem sem que a situação se repita. Tendo vivido a situação, posso-vos dizer o que direi com um pouco mais de certeza do que quando a morte era um conceito útil, mas puramente intelectual. Ninguém quer morrer. Mesmo as pessoas que desejam ir para o céu, prefeririam não morrer para o fazerem. Mas a morte é o destino comum a todos. Ninguém conseguiu escapar a ela. E é certo que seja assim, porque a morte talvez seja a maior invenção da vida. É o agente de mudanças da vida. Remove o velho e abre caminho para o novo. Hoje, vocês são o novo, mas com o tempo envelhecerão e serão removidos. Não quero ser dramático, mas é uma verdade.

O tempo de que vocês dispõem é limitado, e por isso não deveriam desperdiçá-lo vivendo a vida de outra pessoa. Não se deixem aprisionar por dogmas - isso significa viver sob os ditames do pensamento alheio. Não permitam que o ruído das outras vozes supere o sussurro da vossa voz interior. E, acima de tudo, tenham a coragem de seguir o vosso coração e as vossas intuições, porque elas, de alguma maneira, já sabem em que é que vocês realmente se desejam tornar. Tudo o resto é secundário.

Permaneçam insatisfeitos. Permaneçam loucos. Foi o que eu sempre desejei para mim mesmo. E é o que desejo para vocês na vossa graduação e neste vosso novo começo.

Mantenham-se insatisfeitos. Mantenham-se loucos. 

Muito obrigado a todos.

As três histórias da vida de Steve Jobs - Capítulo II

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A segunda história é sobre amor e perda.

 

Tive sorte. Descobri o que amava fazer muito cedo na minha vida. Woz e eu criamos a Apple na garagem dos meus pais quando eu tinha 20 anos. Trabalhávamos muito, e em dez anos a empresa tinha crescido de duas pessoas e uma garagem a quatro mil pessoas e 2 biliões de dólares. Tínhamos lançado a nossa melhor criação - o Macintosh - um ano antes, e eu tinha acabado de completar 30 anos.

Foi então que me despediram. E perguntam vocês, "Como é que alguém pode ser despedido da empresa que criou? Bem, à medida que a empresa crescia, contratámos alguém supostamente muito talentoso para dirigir a Apple comigo e, durante um ano as coisas correram bem. No entanto, as nossas visões sobre o futuro começaram a divergir, e a rutura foi inevitável - porém, o conselho ficou com ele. Assim sendo, aos 30 anos, eu estava desempregado. E de modo muito público. O foco da minha vida adulta tinha desaparecido, e a dor foi devastadora.

Por alguns meses, eu não sabia o que fazer. Sentia que tinha desapontado a geração anterior de empresários, que tinha derrubado o bastão que eles me tinham oferecido. Desculpei-me diante de pessoas como David Packard e Rob Noyce. Como já referi, o meu fracasso foi muito divulgado, e pensei em sair de Silicon Valley. Mas  percebi que amava o que fazia. O que acontecera na Apple não tinha mudado esse amor. Apesar da rejeição, o amor permanecia, e por isso decidi recomeçar.

Não percebi, na época, mas ser demitido da Apple foi a melhor coisa que poderia ter acontecido. O peso do sucesso foi substituído pela leveza do recomeço. Isso me libertou para um dos mais criativos períodos da minha vida.

Nos cinco anos seguintes, criei duas empresas, a NeXT e a Pixar, e apaixonei-me por uma pessoa maravilhosa, que se tornou na minha esposa. A Pixar criou o primeiro filme animado por computador, Toy Story , e é hoje o estúdio de animação mais bem sucedido do mundo. E, estranhamente, a Apple comprou a NeXT. Eu voltei à empresa e a tecnologia desenvolvida na NeXT é o cerne do atual renascimento da Apple. E eu e Laurene criámos uma família maravilhosa.

Estou certo de que nada disso teria acontecido sem a demissão. O sabor do remédio era amargo, mas creio que o paciente precisava dele. Quando a vida vos atirar pedras, não se deixem abalar. Estou certo de que o meu amor pelo que fazia é que me manteve ativo. É preciso encontrar aquilo que vocês amam - e isso aplica-se ao trabalho, tanto quanto à vida afetiva. O vosso trabalho será uma parte importante na vossa vida, e a única maneira de sentir satisfação completa é amar o que vocês fazem. Caso ainda não tenham encontrado, continuem a procurar. Não se acomodem. Como é comum dos assuntos do coração, quando encontrarem, vocês simplesmente saberão. Tudo vai melhorar, com o tempo. Continuem à procura. Não se acomodem.

As três histórias da vida de Steve Jobs - Capítulo I

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Steve Jobs foi o criador e principal mentor da Apple durante muitos anos. Sempre o considerei uma mente brilhanteve e, por isso, tive curiosidade de ler um pouco mais sobre a sua vida. A doze de junho de dois mil e cinco, na cerimónia de graduação da Universidade de Stanford, ele foi convidado a fazer uma palestra a todos os que tinham acabado de licenciar. Uma palestra que os ajudasse, de certa forma, a começar a sua nova vida, que lhes ensinasse algo de novo, no fundo que os inspirasse. 

Esse mesmo discurso é um texto maravilhoso, cheio de ensinamentos não só para os recém-licenciados, mas para todos nós. É a história da vida de alguém que foi extremamente bem sucedido e que nos dá um travo do que realmente a nossa vida é e pode ser e que nos mostra como devemos seguir sempre o nosso coração. Ele divide o discurso em três histórias, que eu vou apresentar em três dias. São histórias interessantes, enriquecedoras e, acima de tudo, verdadeiras. Resta dizer que o texto tem umas pequenas adaptações para que não se tornasse tão cumprido.

 

Estou honrado por estar aqui com vocês na vossa formatura numa das melhores universidades do mundo. Eu próprio não concluí a faculdade. Para ser franco, nunca tinha estado tão perto de uma cerimónia de graduação, até hoje. Quero-vos contar três histórias sobre a minha vida, agora. Só isso. Nada de mais. Apenas três histórias.

A primeira é sobre ligar os pontos.

Eu abandonei a universidade ao fim do primeiro semestre, mas continuei a assistir a algumas aulas por mais 18 meses, antes de desistir de vez. Por que será que eu desisti?

Tudo começou antes de eu nascer. A minha mãe biológica era jovem e não era casada; Estava fazer o doutoramento e decidiu que me ia dar para adoção. Ela estava determinada a encontrar pais adotivos que tivessem educação superior, e por isso, quando nasci, as coisas estavam organizadas de forma a que eu fosse adotado por um advogado e pela sua mulher, só que eles acabaram por decidir que preferiam uma menina. Assim, os meus pais, que estavam em lista de espera, receberam um telefonema a meio da noite: "temos um menino aqui; vocês aceitam-no?" Os dois responderam "claro que sim". A minha mãe biológica descobriu mais tarde que a minha mãe adotiva não tinha licenciatura e que o meu pai nem o ensino secundário tinha. Por isso, recusou-se a assinar o documento final de adoção durante alguns meses, e só mudou de ideias quando eles prometeram que me dariam um curso superior.

Assim, 17 anos mais tarde, foi o que fiz. Mas ingenuamente escolhi uma universidade quase tão cara quanto Stanford, e por isso todas as economias dos meus pais, que não eram ricos, foram gastas para pagar os meus estudos. Passados seis meses, eu não via valor em nada do que aprendia. Não sabia o que queria fazer da minha vida e não entendia como uma faculdade me poderia ajudar em relação a isso. E lá estava eu, a gastar as poupanças de uma vida inteira. Por isso decidi desistir, confiando em que as coisas acabariam por se resolver. Admito que fiquei assustado, mas, agora que penso nisto, considero que foi uma das minhas melhores decisões. Bastou desistir do curso para que eu parasse de assistir às aulas chatas e só assistisse às que me interessavam.

Nem tudo era romântico. Eu não era aluno, e portanto não tinha quarto, dormia no chão dos quartos dos colegas, vendia garrafas vazias de refrigerantes para conseguir dinheiro; e caminhava 11 quilómetros todos os domingos à noite porque um templo Hare Krishna oferecia uma refeição gratuita nesse dia da semana. Eu adorava a minha vida, como podem imaginar. E grande parte daquilo que acabei por descobrir seguindo a minha curiosidade e intuição tornou-se valioso mais tarde. Vou dar um exemplo.

Na época, o Reed College talvez tivesse o melhor curso de caligrafia do país. Todos os cartazes e etiquetas do campus eram escritos em letra belíssima. Uma vez que eu não tinha de assistir às aulas normais, decidi aprender caligrafia. Aprendi sobre tipos com e sem serifa, sobre as variações no espaço entre diferentes combinações de letras, sobre as características que definem a qualidade de uma tipografia. Era belo, histórico e subtilmente artístico de uma maneira inacessível à ciência. Fiquei fascinado.

No entanto, não havia nenhuma esperança de aplicar aquilo na minha vida. Todavia, dez anos mais tarde, quando estávamos a projetar o primeiro Macintosh, lembrei-me de tudo aquilo. E o projeto do Mac incluía essa aprendizagem. Foi o primeiro computador com uma bela tipografia. Sem aquele curso, o Mac não teria múltiplas fontes. E, porque o Windows era só uma cópia do Mac, talvez nenhum computador viesse a oferecê-las, sem aquele curso. É claro que ligar esses pontos era impossível na altura em que andava na universidade. Mas em retrospetiva, dez anos mais tarde, tudo ficava bem mais claro.

Repito: só conseguimos ligar os pontos em retrospetiva. Por isso, é preciso acreditar que no futuro acabarão por estar ligados. É preciso confiar em alguma coisa – o vosso instinto, o destino, o karma. Não importa. Esta abordagem nunca me dececionou, e mudou a minha vida.

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